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Publicado no Jornal do Brasil em 11 de dezembro de 2007 Caro Délio Cardoso, Como ex-piloto de stock car, o senhor tem plena consciência de que a raiz de um excelente piloto, como foi Airton Senna, localiza-se na medula. É uma qualidade inata, que não se cultiva em cursos teóricos e que não se desenvolve com o tempo. Como ex-piloto de stock car, o senhor tem total consciência de que os motoristas, em sua esmagadora maioria, são pessoas que não possuem os dotes medulares necessários para pilotar bólidos. E como ex-piloto de stock car, o senhor sabe que as ruas do DF - e no conceito de ruas incluo as estradas da cidade, essas que garantem uma fração da Cide aos cofres distritais - não primam pela qualidade do piso e não são, em hipótese alguma, pistas de corrida.
O senhor, como ex-piloto de stock car, sabe de tudo isso. E sabe, também, que por estúpidas razões uma pletora de motoristas da cidade cultiva o ignorante hábito de apertar excessivamente o acelerador. Um ex-piloto de stock car como o senhor, presidente do Detran desta cidade que motoristas transgressores transformaram em arena, sabe que o abuso da velocidade é o atalho reto e direto para acidentes gravíssimos. Mortais. Nós, ciclistas por lazer, esporte ou necessidade, queremos crer que o senhor, um homem que cultiva os sentimentos cristãos, está de fato atormentado com a violência que se adonou das vias públicas do DF. E com a mais do que urgente necessidade de retirar das ruas os motoristas infratores que infringem a lei, convictos de que se homiziarão nas tíbias penas estipuladas pelo Código de Trânsito Brasilero. Quem, como o senhor, teve a mais do que justa preocupação em encomendar uma missa, celebrada no Dia Mundial das Vítimas de Trânsito - 18 de novembro -, para estimular uma reflexão sobre a guerra em que se transformou o trânsito da cidade, sabe, por ser um ex-piloto de stock car, que velocidade chama mais velocidade. E mais velocidade resulta em eventos de proporções gigantescas. Eventos que caracterizam sinistros de trânsito dolosos, como os cometidos pelos canalhas que, covardemente, condenam à morte, sem prévio aviso, ciclistas, pedestres e terceiros. Eu não sei se o senhor, ainda que eventualmente, dirige o seu automóvel pela DF-055, a remendada estrada que leva à Vargem Bonita. Se não tem esse hábito, permita-me sugerir-lhe essa experiência. Mas não a bordo de seu veículo particular. Sim, a cavaleiro de uma bicicleta. Caso aceite esse convite, o senhor vai constatar que uma penca de motoristas que trafega na DF-055 tem a inabalável convicção de que os especialistas em trânsito que arbitraram para essa via a velocidade máxima de 60 km/h talvez entendam de criação de camelos. Ou de numismática. Em matéria de trânsito, para esses motoristas, os engenheiros de trânsito, sejam eles do DER ou do Detran, são umas cavalgaduras. Eu tenho plena consciência de que, mais dia menos dia, novas e mortais vítimas serão feitas por esses motoristas que dirigem a velocidades burras, incompatíveis com a realidade da DF-055 e de outras vias públicas da cidade. Esses débeis menteis que ao se aproximarem de ciclistas deles não se afastam e não reduzem a velocidade. Eu também tenho plena, inteira, cabal consciência de que o senhor, como presidente do Detran, não tem jurisdição sobre as DFs. Mas o senhor, como ex-piloto de stock car, sabe que apenas os bem dotados em matéria de medula podem dirigir a velocidades muito superiores a 80 km/h. Por isso, doutor Délio, permito-me sugerir à sua alma cristã, ao seu espírito humanista, que, depois de pedalar pela DF-055 (e estou pronto para lhe fazer companhia), pondere sobre a conveniência de o Detran reduzir as velocidades máximas recentemente expandidas para inúmeras vias da cidade. Se o senhor meditar sobre essa proposta, que lhe submeto em nome dos ciclistas, pedestres e terceiros que à direita do Pai Eterno estão sentados depois de assassinados por motoristas transgressores, nós, que pedalamos a cada dia - e que diariamente somos ameaçados por pilotos frustrados de stock car -, comemoraremos um melhor e muito mais feliz Natal. |