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GDF lançará, em dezembro, edital para construção de 465 km de ciclovias Imprimir E-mail
Qui, 11 de dezembro de 2008

“Queremos fazer com que o ciclista seja tão respeito em Brasília como a faixa de pedestre é respeitada”

Leonardo Firme, Gerente de Ciclovias do GDF

Em meio ao turbilhão de engarrafamentos que assolam as grandes cidades no País, milhares de técnicos, especialistas e gestores se reuniram no auditório do Ministério das Cidades para discutir como viabilizar o uso da bicicleta como um meio de transporte seguro no País. Ao abrir a Conferência Internacional de Mobilidade por Bicicleta, com o título “Bicicultura – bicicletas para um mundo melhor”, o Secretário Nacional de Transporte e da Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, Luiz Carlos Bueno de Lima, disse que a política de transporte urbano envolve ônibus, metrô,automóveis, transporte aquaviário e também a bicicleta, entre outros, e anunciou que o GDF lançará, em dezembro, edital para construção de 465 km de ciclovias. O encontro foi até sexta-feira (14/11/2008), no Ministério das Cidades, em Brasília.

O secretário afirmou que o papel do ministério é incentivar uma nova cultura de uso da bicicleta em nível nacional. “Deixamos de usar as bicicletas e os bicicletários e abandonamos uma cultura de bicicleta que existia”, pontuou. “Agora, estamos desenvolvimento uma série de ações que se destina ao resgate das ações que já estavam estruturadas”. O secretário informou que o governo federal tem disponibilizado recursos para que os Estados e Municípios possam planejar e criar estruturas para a utiliza;ao da bicicleta no transporte, no esporte e no turismo, por meio de duas linhas de financiamento, que incluem construção de infra-estrutura, bicicletários e outros equipamentos.

O presidente da ONG Rodas da Paz, organizadora do evento, Maurício Gonçalves, afirmou que “a definição de uma política de uso sustentável da bicicleta como meio de transporte é estratégico para qualquer Nação que vise o desenvolvimento e a inclusão social”.

Programas Cicloviários

No primeiro dia do evento, foram apresentados os principais programas regionais de incentivo ao uso da bicicleta. O programa Pedala DF, em Brasília, visa construir 600 km até 2010. “Seremos a maior rede cicloviária da América Latina”, disse o gerente de ciclovias do DF, Leonardo Firme. “Vemos a bicicleta como um modal importante para a política de transporte. Com a integração com os demais sistemas, você terá rotas de segurança, horários definidos e economia nas passagens”, afirmou.

Em termos mundiais, o Brasil é o terceiro maior fabricante mundial de bicicletas, conforme dados do Ministério das Cidades, e tem a quinta maior frota do mundo.

O Pedala DF prevê a construção de ciclovias; ciclofaixas e o acostamento ciclável, que, segundo ele, é uma idéia nova que está sendo discutida no grupo de trabalho do Denatran, que está formatando um Programa Cicloviário nacional.

Leonardo disse que serão lançados o edital em dezembro para a construção de 465 km. “Hoje temos em andamento a ciclovia da Via Estrutural, que são 6 km. E, em elaboração, os projetos executivos de ciclovias nas regiões administrativas do DF, num total de 465 km, a cargo do DER. Em janeiro, segundo o gerente, serão lançados os editais para construção de 80 km de ciclovias em rodovias no DF. As rotas estão baseadas em estudos e levantamento de dados de contagem de tráfego de bicicleta.

Algumas das rotas mais usadas são do Gama e Santa Maria ao Pistão, em Taguatinga e até Águas Claras. Outra rota é a rodovia que transita Lago Sul e Lago Norte e a terceira é que sai do Vale do Amanhecer para trabalhar em Planaltina. O governo está lançando o site www.pedala.df.gov.br, com informações sobre o programa.

Educação para o trânsito

Os participantes do evento enfatizaram a necessidade de ações complementares para a educação de motoristas, pedestres e ciclistas para a convivência no trânsito. No Rio de Janeiro, o programa cicloviário envolve a inclusão de questões sobre a bicicleta no trânsito nas provas do Detran e o trabalho nas escolas, por meio da formação de professores, alunos e até mesmo dos pais dos estudantes. Em Brasília, o programa de educação terá a participação do Ministério das Cidades, UNB, Detran, DER e BPTRANS, nos moldes dos projeto “Caminhos da Escola (Safe routes to Schoo)l”.

O embaixador dos Países Baixos no Brasil – Onno Hattinga van’t Sant, enfatizou as razões pelas quais a Holanda é o país mais “pedalável” do mundo. “Na Holanda, há mais bicicletas do que habitantes”, afirmou. Em seu discurso, o embaixador disse que o tema é estudado nas escolas e que os alunos fazem um teste, prático e teórico, antes de iniciar o curso secundário. A maioria dos alunos vai para a escola de bicicleta. “Perto de cada estação de trem, parada de ônibus, edifícios comerciais, hospitais há bicicletários”, informou o embaixador. “A Holanda não vive sem bicicleta. Em idade avançada, tempo bom ou tempo ruim, não importa. Para os mais idosos, tem a bicicleta elétrica”, afirmou.

Regras para o uso da bicicleta

O embaixador da Holanda explicou que é preciso ter políticas e regras claras para o uso da bicicleta. Alguns alertas foram; não andar duas pessoas lado a lado; equipar as bicicletas com farol traseiro e dianteiro, ter bicicletários em todos os locais; estabelecer que o motoristas tem que dar preferência ao ciclista; a ciclovia não pode ser interrompida abruptamente, em meio aos carros; é preciso levar em conta, no planejamento urbano, a construção da infra-estrutura cicloviária; nos cruzamentos e retornos, os ciclistas devem ter uma área reservada e as ciclovias devem ser iluminadas, assim como as rodovias, além da integração entre os vários meios de transporte. “Isso requer locais para estacionar bicicletas em escritórios e residências, em estações de metrô, ônibus e trem”, alertou o embaixador dos Países Baixos.

Conscientização do motorista

Um dos debates mais polêmicos do encontro foi com relação à falta de informação do ciclista com relação aos direitos do ciclista, previsto no Código Brasileiro de Trânsito. Entre as regras, a de que a bicicleta pode trafegar na rua, quando não houver ciclovia, ciclofaixa e acostamento, e a de manter a distância mínima de 1,5 m do ciclista. “A educação para ciclistas é muito importante desde a infância. Mas deve ser também do motorista, que deve criar consciência da vulnerabilidade do ciclista”, acrescentou o embaixador dos Países Baixos.

Investimentos permanentes

Durante o evento, o embaixador da Alemanha no Brasil, Prot Von Kunow, informou que a definição clara de recursos é essencial para viabilizar qualquer programa que possa beneficiar a população de maneira concreta. “Temos um plano nacional de ciclovias e vamos investir, nos próximos anos, o equivalente a R$ 250 milhões nas ciclovias”, informou. Ele acrescentou que as políticas de incentivo ao ciclismo podem ser encaradas pelo poder público como uma fonte de renda. “O turismo ciclístico é muito bem organizado na Alemanha. Temos uma rede de ciclovias, especialmente no Norte e no Sul, entre os castelos, monumentos e ao lado dos rios”, ilustrou.

Acidentes e mortes

O desrespeito às regras de trânsito e a impunidade foram apontados como uma das principais razões para o elevado número de acidentes envolvendo ciclistas. Segundo dados apresentados pelo Secretário Adjunto de Transporte do DF, Júlio Arnau, no Distrito Federal, ocorreram, no ano passado, 1.139 acidentes envolvendo bicicletas, ficando em terceiro lugar no ranking de acidentes 73% foram com veículos motorizados e, 10%, motocicletas. Os dados indicam que, a cada quatro acidentes, três ocorreram dentro das cidades. O final da tarde é o horário de maior incidência, 95% das vítimas são homens e 50% morrem por traumatismo craniano. “Isso mostra que são mortes que poderiam ser evitadas se eles usassem o capacete”.

Bicicleta como meio de transporte

Pesquisa realizada pelo Programa Pedala DF e apresentado no evento demonstra que, entre muitas outras razões, como lazer e esporte, a economia é o motivo mais forte para o uso da bicicleta no Distrito Federal (47% dos entrevistados). O perfil do ciclista, traçado pela pesquisa, demonstra que 86% dos ciclistas são homens; 41,34% estão empregados; 60% têm entre 18 e 35 anos e mais de 40 por cento ganha até dois salários mínimos.

Inversão da lógica do motorista

Os participantes do evento questionaram como os programas cicloviários pretendem trabalhar uma mudança de paradigma na lógica do transporte urbano que impera no Brasil, voltado para o uso do transporte individual motorizado. Entre as críticas com relação a medidas adotadas no DF, estão o aumento do limite de velocidade, a falta de estacionamento em prédios novos; a ausência da construção de ciclovias em novas obras de ampliação de pistas e construção de viadutos e o abandono das ciclovias existentes.

“A bicicleta foi eleita pela ONU como símbolo do transporte sustentável”, disse Leonardo Firme. “O DF tem vocação natural para o ciclista, relevo pouco acidentado, cidades planejadas e baixos índices de chuva”. O gerente admitiu, no entanto, que a capital do país ainda é hostil ao usuário de bicicleta. “Segundo o Detran-DF, nos últimos 5 anos, 11,4% do total de acidentes envolveram ciclistas. Se considerar os acidentes não registrados, o número é muito maior”, admitiu. “A demanda reprimida existe, ela deve ser grande e a gente deve estar preparado para isso”, completou o coordenador do Programa Pedala DF.

Do total de 600 km que o GDF pretende entregar até o final de 2010, 40 km estão concluídos. São as ciclovias de São Sebastião, Itapuã e Samambaia, esta última integrada com o metrô. Em todo o mundo, Hamburgo, na Alemanha, com 1.850 km, é a campeã em ciclovias. Paris, na França, tem 350 km e Bogotá, a mesma extensão de malha. O Rio de Janeiro conta, hoje, com 160 km de ciclovias. Toda a Holanda tem 6,5 mil km de ciclovias, o que corresponde a uma viagem de ida de volta de São Paulo a Belém, no Pará.

O parlamento e a mobilidade

A Conferência Internacional de Mobilidade por Bicicleta continua amanhã, com os painéis “Educação, Cidadania, Legislação e Fiscalização”e “O Parlamento e a Defesa dos Direitos da Mobilidade Urbana”, a partir das 14h da tarde, no auditório do ministério das Cidades, em Brasília. Inscrições e mais informações no site: www.rodasdapaz.org.br. O evento será encerrado no sábado, com o Passeio Ciclístico da República, a partir das 9h, com concentração em frente ao Museu da República, na Esplanada dos Ministérios.

FONTE: ASSESSORIA DE IMPRENSA DA RODAS DA PAZ